Eu mereço ser amada

Por Samira Soares

Em "Eu mereço ser amada", a escritora Lívia Natália - @livianataliapoeta - nos apresenta como a experiência do amor romântico nos foi tirada pela escravidão.


Segundo a poeta, "o desamor é uma queixa comum entre mulheres negras”, por conta da própria cultura racista e sexista que forjou que nós não somos dignas de amor e atenção.

A forte frase ''Eu mereço ser amada'' é um chamado para humanização da nossa emocionalidade, assim como perceber as nossas relações afetivas como dignas de respeito e companheirismo. Ao ler esse texto, percebi como nós, mulheres negras, somos destituídas do amor em relações afetivas e até mesmo entre amigos porque ocupamos constantemente o lugar de potenciais cuidadoras da nossa rede de afeto. Essa imagem de controle (Patricia Hill Collins) é uma ferramenta de opressão por nos retirar a experiência de sermos cuidadas.


É comum percebermos em relações de amizade negras, e sobretudo inter-raciais, mulheres negras como as cuidadoras das pessoas brancas, e estas por não compreender como merecemos atenção acabam colocando seus problemas acima dos nossos nos desumanizando completamente. Esse lugar é exaustivo.

No texto, a escritora chama atenção das relações afetivas entre heterossexuais, e aponta que nessa troca os homens valorizam dar amor às suas mães, mas deixam suas companheiras vivendo os vários moldes da solidão e ainda assim cuidar deles. Isso também pode ser percebido em relações entre pessoas LGBT's quando o cuidado sobrecarrega um em detrimento do outro. Ambas as partes devem se colocar disponíveis para dar amor. Afinal, todo mundo gosta de se sentir amada/o. Por isso o afeto precisa ser "recíproco, cuidadoso, mas não opressor". Para que se possa compreender como a falta de cuidado/ incompreensão da nossa subjetividade é um gesto que pode ferir a nossa autoestima.


Por fim, ela afirma que merecemos ser amadas por nós mesmas e por todos que vivem ao nosso redor. E isso é para além do autocuidado estético, por entender que nada adianta cuidarmos da nossa aparência e estarmos completamente estilhaçadas por dentro. É urgente exercitarmos o ouvir e sermos ouvidas, cuidar e sermos cuidadas. Isso é sobre dignificar a nossa subjetividade negra.