Nós somos jovens chapadenses e temos o direito ao ensino superior.

Atualizado: 9 de ago. de 2021


Raiane e Crislayne

Raiane Silva da comunidade do Remanso de Lençóis-Bahia é uma das jovens que acreditou na cultura do estudo como meio de transformação social e luta pelo direito de ser negra e quilombola. Ela frequentou o curso preparatório do #Enem do Ponto de Cultura Grãos de Luz e Griô, se empoderou e conquistou seu lugar na educação superior com a aprovação em Direito na #UFBA, Bacharelado Interdisciplinar em Humanidade na #Unilab e Jornalismo #UFRB.


Ela teve que vencer uma burocracia imensa, mudar de cidade, articular moradia, bolsa de estudo, se adaptar à vida acadêmica e outros desafios em menos de um mês. Mesmo com o apoio e parceria da família e do ponto de cultura, esses desafios parecem intransponíveis para ela e para jovens que são os primeiros entre seus parentes a acessar a universidade.


Mas Raiane, assim como todos os jovens Grãos, não param por aí. Eles passam a influenciar na cultura do estudo e no empoderamento de jovens e crianças de suas famílias e comunidades. São cinquenta exemplos de jovens (veja o álbum aqui) que passaram a ocupar lugares na universidade e em projetos artísticos, culturais e econômicos na comunidade a partir da formação no ponto de cultura, influenciando as políticas públicas locais e regionais pelos direitos da juventude.


Para dar esse passo, jovens de comunidades interioranas ou do campo, indígenas ou quilombolas têm que se distanciar por muito tempo de seu modo de vida, sua família e território de identidade para enfrentar um projeto de embranquecimento que incentiva o êxodo rural brasileiro, o racismo institucional, o preconceito cultural e o crescimento das periferias das grandes cidades. As feridas desse enfrentamento marcam os corpos e a afetividade dos jovens de diversas maneiras.


Jamais vou esquecer, como chapadense enraizada, as dores de viver na cidade grande durante a juventude para estudar com a certeza de que ali não era meu lugar. Mas, como minhas alunas e alunos, tinha uma responsabilidade com o fato de sermos os primeiros a ter acesso a universidade. Porém existe um grande abismo entre nós, além de todos os enfrentamentos que conheci, elas e eles tiveram que enfrentar o racismo estrutural atrelado a desigualdade social.

As universidades se transformaram aos poucos para receber a juventude de comunidade tradicional com programas de acesso e permanência por meio das cotas, do restaurante universitário, das bolsas de residência e transporte, do apoio à saúde mental e física, além de outras ações que diminuem os impactos dessa mudança imposta à juventude. São políticas ora conquistadas e ora perdidas nos últimos anos da crise da democracia.



As jovens grãos também trazem exemplos de organização, cooperação familiar e comunitária para viver esse processo juntas, assim a família das jovens Grãos Eduarda Silva, Luane Sá, Clara Almeida e Fernanda Soledade alugou um apartamento e fundou a Casa das Primas. Mais do que uma casa cooperativa de primas que enfrentam juntas o desafio do estudo e da cidade grande, elas partilham nas redes sociais vídeos com suas experiências, conflitos e soluções do dia a dia como jovens mulheres negras chapadenses que valorizam sua identidade, ancestralidade e sonhos de mundo melhor.

"Sou mãe dessas jovens universitárias. Se não fosse a sabedoria e a organização dessas meninas em formar a casa das primas onde tudo é dividido por sete, elas não teriam condições de frequentar o ensino superior, mesmo tendo conseguido 50% de bolsa."

Comenta Marilandia Souza, educadora da rede municipal de Lençóis, mãe de Pétala, Eduarda e Iranildo Souza.


Por outro lado, a migração de jovens para estudar nos grandes centros urbanos, criam impactos nas cidades do interior e nas comunidades que perdem a convivência com sua juventude. Perde-se o cuidado e valor da terra, da vida comunitária e da ancestralidade. Como um povo e uma cultura resiste sem a transmissão de saberes e fazeres tradicionais para a juventude e sem contar com a sua energia e conhecimento rebelde, transformador e contemporâneo? Alguns jovens optaram por ficar e frequentar a universidade particular ou pública em Seabra, o que significa arriscarem suas vidas na estrada regularmente e pagarem valores de transporte, alimentação e ou mensalidades que somam praticamente um salário mínimo a mais na renda mensal de uma casa que sobrevive com trabalhos informais ou assalariados. Ou seja, a desigualdade social cria barreiras que dificultam a passagem mesmo daqueles que são aprovados para o ensino superior.



Samira Soares @narrativasnegras

A juventude no Grãos é formada para enfrentar esse desafio coletivamente, jovens vão se tornando referências uns para os outros, na orientação do passo a passo, na articulação de bolsas de estudo e na formação técnica artística e cultural para se inserirem no mercado de trabalho. Nesse sentido, Samira Soares, que atualmente faz mestrado em letras na UFBA é uma referência para todos(as).





Michele Nascimento @michapreta_visaocriativa

Michele Nascimento que frequenta a faculdade de pedagogia em Seabra, se formou em audiovisual e desenvolve produtos artísticos feministas junto às mães e jovens, além de gerir a TiVi Griô (web tv e cineclube de jovens de Lençóis).

O fato é que o empoderamento de jovens Grãos que firmam suas raízes e lutam pela sua família e comunidade tem influenciado as políticas locais.





Os resultados de investimentos na educação superior da juventude têm se multiplicado. A #UEFS - Universidade Federal de Feira de Santana vem ampliando seus cursos no CacdUefs - Campus Avançado da Chapada Diamantina, incluindo a pós-graduação. A prefeitura local fez uma parceria com a #UNOPAR - Universidade Norte do Paraná e trouxe mais de 60 cursos EAD para a cidade, a #UNEB - Universidade Estadual da Bahia ampliou seus cursos no Campus de Seabra , recentemente destacou novo curso de Bacharelado em Jornalismo, além dos cursos de Pedagogia e Letras. E o Senac Lençóis, também abriu espaço para o Ensino à Distância - EAD (aprovados pelo MEC) com mais de 250 cursos entre #cursoslivres, #técnicos, #graduação, #pós e #extensãouniversitária - confira a lista clicando aqui!


"Leio a visão do ponto de cultura Grãos de Luz e Griô, vejo os jovens e seus sonhos que me salvam da burocracia, do cansaço e do medo. Sinto meu corpo ressignificado, porque também fui a primeira de uma família de analfabetos sem terra, quilombolas, a entrar na universidade nas épocas que não existiam projetos e políticas de apoio. Minha salvação foram as Cebs. Espero que essa turma nova de jornalismo esteja povoada de jovens grãos de luz e griôs e a gente consiga tecer sonhos juntas."

Afirma Gislene Moreira, coordenadora do curso de jornalismo da Uneb Seabra.


Estes jovens anseiam que as prefeituras das cidades da Chapada, assim como as empresas e a gestão das universidades promovam muito mais do que cursos universitários. Desejam que criem políticas de acesso e permanência no ensino superior para a juventude chapadense. Bolsas de estudo, apoio aos cursos preparatórios para o Enem, programas de inserção no mercado de trabalho, programas de pesquisa e extensão para jovens atuarem em suas próprias comunidades, metodologias que reconheçam a identidade e ancestralidade dos jovens. Estes são alguns exemplos que o ponto de cultura Grãos de Luz e Griô tem para partilhar.


Não é fácil mudar uma crença, porque uma crença muda uma ideia, uma ideia muda uma política, uma política muda o direito ao bem viver de famílias, gerações e da própria mãe terra. A crença que a geração de jovens Grãos veem contribuindo para mudar em Lençóis e na Chapada Diamantina é:

Nós somos jovens chapadenses, temos o direito ao ensino superior e permanecer em nosso território.

Aquele abraço meu povo, parafraseando Gil, vamos dar régua e compasso para à juventude chapadense.


Aquele abraço, juventude, vocês são incríveis!







Texto da Professora Líllian Pacheco




Revisado pelos jovens do Ponto de Cultura Grãos de Luz e Griô e da Escola de Formação na Pedagogia Griô: Raiane Silva, Michele Nascimento, Uilami Dejan, Tainã Pacheco e Rosevânia Machado (seguem fotos na ordem de citação):


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