Ricardinho é o rei do rock!


O diminutivo do título é uma tradução carinhosa para chamar a grandiosidade de Little Richard, cantor estadunidense que morreu recentemente aos 87 anos. Negro, homossexual e pioneiro do rock, o cantor criou um estilo único, marcou um ritmo e um movimento que nasceu em um cenário influenciado por artistas negros do gospel da década de 30 e 40. O cantor inspirou ainda rockeiros famosos do mundo inteiro a associarem o gênero musical a um sentimento de liberdade, enfrentando tabus e preconceitos em um tempo onde o racismo era uma ordem social sólida. Atraiu a atenção de gravadoras e outros artistas que se interessavam pelo que estava surgindo... mas não exatamente da forma que estava sendo mostrada. A expansão mundial do ritmo - negro em sua origem - também expôs as estratégias usadas para que o rock entre de forma aceitável nos lares das famílias norte-americanas.

Um dos hits desta época é a música Tutti Fruti. Podemos ver a diferença entre a versão original da música, composta e gravada pelo próprio Richard, e as versões gravadas por Elvis Presley e Pat Bone . Inclusive é marcante a importância de Elvis para o movimento do rock e o próprio Richard reconheceu que o ídolo abriu caminho para tantos outros. Mas também afirmava a origem negra do ritmo: “Elvis era incrível, mas ele não foi um criador. Não quero dizer com isso que fosse pior, mas os autênticos criadores do rock‘n’roll foram negros”

E são os negros e negras que guiam e orientam o caminho em diversos segmentos. Continuemos na música. O rap, por exemplo, subverte e transforma em rima um histórico de opressão, insatisfação e revolta contra uma rotina pautada nas violências cotidianas das periferias. Os rappers assumem um discurso sem meias palavras para questionar a estrutura de poder imposta. É por isso que, quando algum artista branco assume uma identidade vinculada ao rap, sua verdade é imediatamente questionada. Aqui, podemos pontuar o quanto é agressivo fazer uso de algo esvaziando seu real significado. Temos outro exemplo clássico e bem-sucedido na indústria da axé music. Gênero que sabemos ter como base a musicalidade dos terreiros e periferias de Salvador. O maestro Letieres Leite, que tem grande experiência na música da Bahia, já expôs em entrevista o quanto se fazia necessário na época ter uma protagonista branca para que o movimento tivesse aceitação e lucro naquele mercado em ascensão.

Pois bem. É bom falar aqui do quanto a arte e a cultura negra precisam passar por um processo de assepsia para ser aceita pelo grande mercado. Uma limpeza estética normalmente conduzida por um olhar colonial acostumado a impor o que deve ser consumido e como deve ser consumido. Voltando ao nosso senhor do rock Little Richard, ele mesmo diz que: "Eles precisavam de uma estrela do rock para me afastar de casas brancas, porque eu era um herói para as crianças brancas. Assim, as crianças brancas teriam o compacto de Pat Boone em cima da cômoda e o meu escondido na gaveta - porque eles adoravam a minha versão; mas as famílias não me queriam em razão da imagem que eu estava projetando".

O nosso verdadeiro rei do rock expôs uma realidade: a cultura negra que brilha na cozinha, no gueto, no terreiro não costuma ser a mesma que sobe ao palco e ganha projeção. Sempre existe uma adaptação para adequar rapidamente aquilo que está nascendo a uma lógica capitalista e, consequentemente, branca (lembrando aqui a relação intrínseca que existe entre capitalismo e colonialismo). Se temos hoje algum sinal de transformação em vigor, é através da resistência e da afirmação dos movimentos sociais e artistas, que com muita coragem decidem assumir o protagonismo em todas as etapas de produção da sua arte. Ao fazer uma rápida pesquisa na internet, é possível ver que o assunto rende, seja na moda, na beleza, na música, dança, artes visuais, conhecimento tradicional, enfim. Em todas as formas de produção criativa, ela está lá: a apropriação cultural. Um assunto que vai muito além do que se pode ou não usar e falar, mas que expõe os mecanismos de uma estrutura de poder que estrutura a sociedade.

O contrato sempre existe. É a partir das relações interculturais que as identidades são transformadas, processos de construção, desconstrução e reconstrução são elaborados em um ciclo onde a única certeza é a impermanência. Estas mesmas relações interculturais nos convidam ao confronto, ao enfrentamento. A relação com o diferente fascina, amedronta e estabelece trocas que ocorrem principalmente no terreno do simbólico e do subjetivo. Mas sem esquecer que neste terreno também é marcado por relações sociais complexas de dominação e poder onde questões materiais e não-simbólicas denunciam a continuidade de uma herança colonial. Quem (ainda) domina a estrutura sabe impor uma ordem. Sabe como manter uma ideia de superioridade.

E essa herança colonial nos faz lembrar que “a apropriação já foi uma regra e um instrumento de inferiorização e genocídio simbólico” (William, 2019). Uma regra que vem sendo transformada a partir da retomada, que aliás é o título de uma música da descolonizada Larissa Luz, que diz: “Graças a Dandara hoje sei que a cor da cidade sou eu. O canto da cidade é meu. Não é seu! ” A música cita a força de Dandara, mulher quilombola que atuou na libertação do seu povo ao lado do marido Zumbi dos Palmares. É referência de mulher negra que acredita no seu sonho e reage à insegurança com força e estratégia. Dandara trabalhava na caça e na agricultura, era capoeirista e também assumia responsabilidades de defesa do quilombo.

Neste campo de batalhas entre heranças coloniais e possibilidades infinitas de retomar direitos e reexistir, temos a afirmação de uma cultura de resistência. Os símbolos da cultura negra são símbolos de resistência. Agregam um sentido político às múltiplas e potentes criações da comunidade negra em uma sociedade que insiste na permanência de papéis subalternos desenhados por formas modernas de colonização. O nosso Ricardinho do título é um revolucionário do seu tempo, com seu ritmo único e uma personalidade que reflete sua origem e suas inquietações. Hoje o cenário é outro em diversos sentidos, mas a disputa pela conquista do próprio território não tem fim. Um território que nunca é dado. É conquistado.


Texto: Renata Reis (@a.renatareis)


Foto: www.esquire.com


Referências:

William, Rodney. Apropriação Cultural. Coleção Feminismos Plurais. Editora Pólen, 2019.

Música "Sulicídio": https://www.youtube.com/watch?v=2ZvGhK9aOK8

https://brasil.elpais.com/cultura/2020-05-10/little-richard-o-musico-que-libertou-a-musica-dos-tabus.html

https://gente.ig.com.br/cultura/2017-07-10/embranquecimento-do-rap.html

https://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/28/elvis-roubou-de-artistas-negros-little-richard-e-b-b-king-respondem/

Música “A retomada”: https://soundcloud.com/ministereopublico/a-retomada-larissa-luz-ft

https://whiplash.net/materias/biografias/247376-littlerichard.html

https://www.geledes.org.br/resistencia-negra-brasileira-o-20-11-dia-nacional-da-consciencia-negra/

Música “Território Conquistado”: https://www.youtube.com/watch?v=i0OomyT-NBE

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